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Neurodesenvolvimento: O Que Muda No Cérebro Com TDAH E TEA

Por Lucas Kane · publicado em 8 de setembro de 2026

Transtornos do neurodesenvolvimento são aqueles que se instalam durante o próprio desenvolvimento do cérebro, com forte componente genético, e não são adquiridos por traumas ou vivências. No DSM-5, TDAH, transtorno do espectro autista e transtornos específicos de aprendizagem estão na mesma categoria. No TDAH, a alteração mais estudada é a baixa disponibilidade de dopamina, que deixa o córtex pré-frontal sem combustível e abre espaço para o sistema límbico. No autismo, o ponto que mais se aproxima de consenso é a menor disponibilidade de GABA. E, antes de qualquer intervenção, vem a avaliação neuropsicológica, que existe para entender o funcionamento da pessoa, não para caçar um rótulo.

O que faz de um transtorno um transtorno do neurodesenvolvimento?

O momento em que ele se instala. Lucas Kane explica que não se trata de uma característica herdada ao longo da vida a partir de traumas ou vivências: desde o desenvolvimento embrionário e ao longo da infância e da adolescência, o funcionamento cerebral vai se constituindo de outro jeito, com forte fator genético e hereditário. É isso que coloca o TDAH na mesma categoria do transtorno do espectro autista e dos transtornos específicos de aprendizagem.

A consequência clínica aparece adiante: esses quadros não vão embora. O que muda com intervenção é o prejuízo que eles causam.

O que é TDAH, e quais são os sintomas?

TDAH é transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Há quem tenha o que se costuma chamar de TDA, com o déficit de atenção sem a hiperatividade. Os sintomas principais são dificuldade em manter a atenção, impulsividade e dificuldade de controle inibitório, desorganização e dificuldade de planejamento, baixa tolerância à espera e ao tédio, e hiperatividade em alguns casos.

A frase com que ele abre o vídeo é a que interessa ao terapeuta: o transtorno não tem nada a ver com frescura, falta de esforço, nem é um transtorno da moda. É um quadro real, com alterações visíveis no cérebro.

Quais estruturas sustentam a atenção?

Cinco, e conhecer todas evita reduzir atenção a força de vontade.

Estrutura ou sistema O que faz pela atenção
Córtex pré-frontal Sustenta a atenção por um período, planeja, organiza e inibe impulsos. É a principal estrutura envolvida
Campo ocular frontal Define o foco visual: em que olhar neste momento. Já foi associado ao TDAH em estudos
Córtices sensoriais primários Recebem primeiro o que se vê, ouve, toca e sente. Atenção também é selecionar em qual desses estímulos ficar
Sistema límbico Damos mais atenção ao que tem valência emocional. Um estrondo faz virar a cabeça na hora, porque dispara medo
Sistema ativador reticular ascendente Começa no tronco encefálico e cria a atenção seletiva, filtrando o que chega do corpo conforme o que o organismo interpreta como importante
Vias dopaminérgicas Partem do mesencéfalo. Prestamos mais atenção naquilo que nos motiva, e dopamina é o principal neurotransmissor da motivação

O sistema ativador reticular ascendente rende uma observação que Lucas Kane faz de passagem e vale registrar. Aquilo que se costuma chamar de lei da atração tem, cientificamente, uma explicação mais modesta: esse sistema cria um viés seletivo, de modo que quem está focado em passar numa prova enxerga mais oportunidades de conseguir. E o inverso também vale: repetir para si que não vai dar conta faz enxergar os problemas como maiores do que são.

Por que a dopamina é o centro da conversa sobre TDAH?

Porque é a alteração mais bem estudada, e é nela que os medicamentos se baseiam: baixa disponibilidade de dopamina em certas áreas do cérebro.

A dopamina produzida no mesencéfalo segue por vias diferentes, e a distinção é o ponto que quase ninguém faz:

Com pouca dopamina no pré-frontal, essas capacidades ficam prejudicadas. E há um segundo efeito, em cascata: como o pré-frontal em funcionamento normal regula as emoções do sistema límbico, um pré-frontal em defasagem abre espaço para que as estruturas ligadas a emoções e memórias fiquem hiperativas. Daí vêm a impulsividade, a hiperatividade e a sensibilidade emocional aumentada.

Traduzido para o dia a dia, é isso que produz dificuldade de manter o foco em tarefas longas, procrastinação e busca por estímulos imediatos, dificuldade de seguir rotinas e cumprir prazos, impulsividade nas decisões e prejuízo nas relações sociais e no gerenciamento das emoções.

Como é o cérebro autista?

O cérebro autista, em um minuto

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Aqui a resposta honesta inclui o que ainda não se sabe. Acreditou-se no passado que o cérebro autista tinha crescimento acelerado, sendo maior que o de pessoas neurotípicas, e uma explicação possível seria o excesso de conexões locais com menos conexões globais: áreas próximas muito conectadas, neurônios distantes nem tanto. Essas evidências passaram a ser questionadas conforme novos estudos mostravam resultados opostos, e hoje não se sabe se isso é verdade.

Duas coisas se sustentam. A primeira é que, ao mesmo tempo em que o cérebro autista é diferente do neurotípico, existe diversidade entre autistas: cada cérebro autista é único. A segunda é o ponto que parece consenso: o GABA, neurotransmissor da neurotransmissão inibitória, aparece em menor quantidade na pessoa autista. Isso pode explicar padrões de hipersensibilidade sensorial, seletividade alimentar e outras estereotipias comuns no quadro.

A conclusão dele é uma posição, não só um dado: a ciência ainda tem muito a descobrir, e cada vez mais ajuda a compreender e acolher a neurodiversidade.

Para que serve uma avaliação neuropsicológica?

Avaliação neuropsicológica não é caça aos rótulos (Limiar Podcast)

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Para entender a pessoa, não para achar um rótulo. No episódio do Limiar Podcast sobre o tema, a resposta a quem procura perguntando "você faz diagnóstico para TDAH?" ou "para autismo?" é negativa por princípio: o que se faz é uma avaliação neuropsicológica para entender aquele indivíduo como um todo, e não para procurar um transtorno específico. A Classificação Internacional de Funcionalidade entra aí, para considerar o contexto de vida, a participação e as características da pessoa.

O argumento técnico é que o sintoma não identifica a causa. A mesma desatenção pode vir de lugares diferentes:

Motivos diferentes, característica parecida. É por isso que a avaliação olha o funcionamento, e não a queixa isolada.

Dificuldade executiva é falta de inteligência?

Dificuldade executiva não é falta de inteligência (Limiar Podcast)

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Não, e a confusão entre as duas coisas é um dos mitos mais comuns sobre o TDAH. Inteligência e funções executivas são construtos diferentes, ainda que se relacionem em modelos cognitivos: a inteligência tem a ver com adaptação e resolução de problemas; o TDAH afeta a regulação atencional e o controle inibitório.

É justamente a inteligência que costuma adiar o diagnóstico. Muita gente só descobre na vida adulta porque desenvolveu estratégias compensatórias sofisticadas. O exemplo que aparece no episódio é de um paciente que anotava tudo o que era dito na sessão, com boa velocidade de escrita, e ainda gravava as conversas. Ele dava conta de lembrar, sim, mas a que custo: ouvir tudo cinco vezes, anotar em cinco lugares, encher o dia de despertadores. Essas estratégias ocupam parte da reserva cognitiva e da memória operacional.

Há um paradoxo relacionado, discutido no mesmo episódio a propósito de altas habilidades: a inteligência acima da média é fator de bom prognóstico, porque amplia a capacidade de resolver problemas e de se adaptar, e ao mesmo tempo alimenta um mascaramento que atrasa diagnósticos e sobrecarrega quem opera sempre no limite da compensação.

Como se intervém?

Em quatro frentes, e a ordem importa.

  1. Diagnóstico primeiro. O diagnóstico pode ser complexo, e ninguém se diagnostica vendo um vídeo na internet. A avaliação neuropsicológica reúne critérios, testes e análise do contexto para dizer se o quadro se enquadra, e é ela que permite pensar um tratamento que faça sentido.
  2. Psicoterapia. Na linha cognitivo-comportamental, ajuda a encontrar estratégias para lidar com o quadro. Como o TDAH não vai embora, o objetivo é reduzir o prejuízo na qualidade de vida.
  3. Modulação do ambiente e da rotina. Rotina fixa e organizada, higiene do sono, exercício físico. Isso funciona por dois motivos ao mesmo tempo: neurobiologicamente estimula produção de dopamina e neuroplasticidade, e praticamente cria um contexto em que é mais difícil se perder nas próprias dificuldades.
  4. Medicação, que em muitos casos é primordial. Lucas Kane pede cuidado com o preconceito contra medicar: trata-se de um transtorno com alterações visíveis no cérebro, e repor dopamina pode ser muito bem-vindo. Ele cita o metilfenidato, conhecido como Ritalina, e o Venvanse, sempre com o médico adequado, ajustando ao longo do tempo.

Há ainda abordagens de neuromodulação em estudo, como neurofeedback e estimulação magnética transcraniana. Ele não as aprofunda, e diz por quê: as evidências ainda são limitadas para afirmar eficácia e viabilidade.

Na clínica

  • O quadro não vai embora; o prejuízo, sim. Isso muda a promessa que se faz ao paciente e à família. O cérebro é plástico e a psicoterapia altera o cérebro, mas o objetivo é funcionalidade, não cura.
  • Desatenção é sintoma, não diagnóstico. Antes de tratar como TDAH, considere trauma, autismo, ansiedade de desempenho e sono. Encaminhar para avaliação é parte do trabalho.
  • Rotina é intervenção neurobiológica. Sono, exercício e estrutura fixa estimulam dopamina e neuroplasticidade. Vale prescrevê-los com essa justificativa, e não como conselho de organização.
  • Cuidado com o preconceito sobre medicação. O paciente que resiste ao psicoestimulante costuma ceder quando entende o mecanismo. Explicar a via mesocortical é psicoeducação, não convencimento.
  • Compensação tem custo. O adulto que "sempre deu conta" pode estar gastando a reserva cognitiva inteira em estratégias. Perguntar o custo, e não só o resultado, muda o que se vê na sessão.

Perguntas frequentes

O que são transtornos do neurodesenvolvimento?

São quadros que se instalam ao longo do próprio desenvolvimento, do período embrionário à adolescência, alterando o funcionamento cerebral, com forte componente genético e hereditário. Não são adquiridos por traumas ou vivências. No DSM-5, TDAH, transtorno do espectro autista e transtornos específicos de aprendizagem estão nessa mesma categoria.

O que acontece no cérebro de quem tem TDAH?

A alteração mais estudada é a baixa disponibilidade de dopamina em certas áreas. No córtex pré-frontal, a dopamina funciona como combustível das capacidades de sustentar atenção, planejar e inibir impulsos. Com pouca dopamina ali, o pré-frontal fica em defasagem, e isso abre espaço para hiperatividade do sistema límbico, o que explica impulsividade e sensibilidade emocional.

TDAH tem cura?

Não, e Lucas Kane é direto sobre isso: o TDAH não vai embora, porque é um transtorno do neurodesenvolvimento e o cérebro funciona de outro jeito. A boa notícia é que o cérebro é plástico. Com psicoterapia, rotina organizada e, quando indicado, medicação, dá para reduzir muito o prejuízo na qualidade de vida e ter um cérebro mais funcional.

O cérebro de uma pessoa autista é diferente?

Sim, e diferente também entre autistas: cada cérebro autista é único. A hipótese antiga de crescimento acelerado, com excesso de conexões locais e menos conexões globais, passou a ser questionada por estudos posteriores. O ponto que parece consenso é a menor disponibilidade de GABA, o neurotransmissor inibitório, o que pode explicar hipersensibilidade sensorial, seletividade alimentar e estereotipias.

Avaliação neuropsicológica dá diagnóstico de TDAH?

Não é assim que ela funciona. No Limiar Podcast, a resposta a quem procura pedindo diagnóstico para TDAH ou para autismo é negativa por princípio: avalia-se o indivíduo como um todo, usando também a Classificação Internacional de Funcionalidade para considerar contexto de vida e participação. A mesma desatenção pode vir de vários lugares.

Quem tem TDAH é menos inteligente?

Não. Inteligência e funções executivas são construtos diferentes: a inteligência envolve adaptação e resolução de problemas; o TDAH afeta a regulação atencional e o controle inibitório. É justamente a inteligência que sustenta as estratégias compensatórias que costumam adiar o diagnóstico até a vida adulta, e essas estratégias têm um custo cognitivo alto.

Transcrição do vídeo (3.125 palavras)

Transcrição automática do áudio da aula, sem revisão, dividida pelos capítulos do vídeo.

00:00 O cérebro com TDAH é diferente, e isso não é frescura

O cérebro de quem tem TDH é diferente do cérebro de uma pessoa que não tem TDH. Graças aos avanços das neurociências, nós já conseguimos identificar vários mecanismos neurais por trás do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Ou seja, quais são as principais diferenças entre o cérebro de quem tem TDAH e o cérebro de uma pessoa neurotípica? Isso deixa muito claro de que esse transtorno não tem nada a ver com frescura, com falta de esforço e nem é só um transtorno da moda, como tem muita gente falando por aí. Trata-se de um transtorno real com alterações visíveis no cérebro. Nesse vídeo eu vou te explicar de uma forma simples e objetiva o que é o TDAH no cérebro e como essas diferenças neurais impactam a atenção a impulsividade, os comportamentos no dia a dia. Se você não me conhece, eu sou Lucas Ken. Eu sou biólogo, neurocientista, formado e pós-graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais, acadêmico de psicologia, terapeuta, criador do maior curso de neurociências na prática clínica do Brasil. E se você tem interesse em aprender mais sobre neurociências e comportamento, inscreva-se nesse canal, porque estou sempre publicando conteúdo sobre isso. TDH significa transtorno do déficit de

01:08 O que é TDAH, e o que é só TDA

atenção e hiperatividade. Algumas pessoas podem ter o que a gente costuma chamar de só TDA, que não possuem a hiperatividade, mas sim o déficit de atenção. Trata-se de um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na atenção, impulsividade e, como eu falei em alguns casos, hiperatividade. o DSM5, que é o manual diagnóstico estatístico de transtornos mentais, o manual utilizado pela comunidade da psicologia, da psiquiatria, para poder diagnosticar algum transtorno. O TDAH está dentro dos transtornos do neurodesenvolvimento. Isso quer dizer que não se trata de uma característica apenas herdada ao longo da vida, com base em traumas, com base em vivências. É algo que desde o seu processo de desenvolvimento embrionário, seu desenvolvimento ao longo da infância, da adolescência, vai gerando alterações do seu funcionamento cerebral, tendo um forte fator genético e hereditário, o

02:00 Transtorno do neurodesenvolvimento, na mesma categoria do autismo

que coloca esse transtorno dentro da mesma categoria, por exemplo, do transtorno do espectro autista e transtornos específicos de aprendizagem. Os principais sintomas do TDH incluem dificuldade em manter a atenção, impulsividade e dificuldade de controle inibitório, desorganização e dificuldade no planejamento, baixa tolerância à espera e ao tédio e hiperatividade em alguns casos. Embora ainda exista muito a se estudar, o TDAH tem uma base biológica definida, o que ajuda a explicar alguns dos impactos significativos que uma pessoa diagnosticada com transtorno pode ter na sua vida. Claro, dependendo da gravidade, dos sintomas e de que tipo de suporte essa pessoa vai receber ao longo da vida. Mas vamos lá, a gente tá aqui para entender como que o cérebro dessa pessoa é diferente de alguém que não tem TDH. E já que estamos falando sobre déficit de atenção, é importante entendermos algumas estruturas que elas

02:50 As estruturas da atenção começam pelo córtex pré-frontal

são comumente associadas à capacidade de atenção no ser humano. E a primeira delas, que sem dúvidas é uma das mais importantes, uma das mais citadas, é o nosso córtex pré-frontal, que ele fica aqui bem na nossa testa mesmo, a parte da frente do nosso cérebro. Essa é uma estrutura muito importante para várias das capacidades conscientes, analíticas e racionais do ser humano. Muito do que nos difere de outros animais está ali no nosso córtex pré-frontal. a capacidade de fazer planejamentos complexos, de ter uma lógica analítica, uma tomada de decisão mais consciente, de pensar sobre o futuro, de gerenciar as nossas emoções, ou seja, não ceder completamente aos nossos impulsos emocionais e, claro, a nossa capacidade de atenção também passa por ali. Então, o cortex préfrontal, ele é essencial para o planejamento, para a capacidade de conseguir reter atenção das coisas e de inibir os nossos impulsos. Existe uma estrutura bem específica também que ela se chama campo ocular frontal, que ela está associada ao nosso foco visual, ou seja, no que que é que eu devo focar visualmente nesse determinado momento. E é claro que isso também tem alguma

04:01 Córtices sensoriais primários e o filtro dos estímulos

relevância quando a gente vai falar sobre a capacidade de atenção. Afinal, se eu não consigo filtrar no ambiente visualmente, no que que eu tenho que focar, isso também pode gerar algum prejuízo. E existem evidências que já associaram essa área com o TDH. Também temos que pensar nos córtices sensoriais primários, ou seja, quando eu falo de córtex, eu estou falando sobre a estrutura mais externa do cérebro, que é muito importante para vários processos cognitivos. Quando eu falo de córtex sensorial primário, eu estou falando daquelas estruturas que recebem primariamente as informações sensoriais, aquilo que eu estou vendo, sentindo, tocando, ouvindo, cheiros que eu estou sentindo, gostos. Então, os cortes e sensoriais primários são importantes porque, querendo ou não, quando a gente fala sobre a atenção, nós estamos falando mais uma vez sobre selecionar que tipo de estímulo que eu devo ficar focado ou não. Então, para pensar nesse exato momento que você tá assistindo a esse vídeo, você tá sendo bombardeado por estímulos. Eu não sei se você tá vendo isso aqui pelo celular, pelo computador, mas além dessa tela em que você tá me assistindo, com certeza existem vários outros estímulos aí no ambiente. Talvez tenha uma parede, uma mesa, um móvel, uma pessoa. Talvez você esteja escutando sons de carros passando lá fora. Talvez o cachorro esteja latindo. Mas ainda assim, com todos esses vários estímulos, você está sabendo filtrar apenas o que você está vendo aqui. Isso tem a ver com capacidade de atenção e claro que isso vai envolver também de alguma forma os nossos cortes sensoriais primários. Também envolve o sistema límbico. O sistema límbico é o sistema comumente associado às emoções e memórias. E querendo ou não, isso também é importante paraa atenção. Afinal, nós temos uma tendência a dar muito mais atenção para aquilo que tem uma valência emocional para nós. Por exemplo, se você tá aqui falando comigo, de repente você escuta um strongo, um barulho muito alto, provavelmente você vai virar sua cabeça na hora para de onde veio aquele barulho para tentar entender o que que aconteceu. Isso é porque isso também dispara em você uma reação de medo. poxa, alguma coisa ruim pode estar

06:01 Sistema ativador reticular ascendente e a atenção seletiva

acontecendo e você precisa destinar o seu foco para aquele possível evento perigoso. Então, se uma determinada situação ela me causa uma emoção de medo, uma emoção de raiva ou até mesmo uma emoção de prazer e alegria, eu tenho a tendência a prestar mais atenção naquilo. Então, o sistema límbico também está envolvido na atenção. E nós temos um outro sistema muito importante que é o nosso sistema Sara, que significa sistema ativador reticular ascendente. Ele começa fora do cérebro, aqui onde a gente chama de tronco encefálico, tá? Faz parte do encéfalo como um todo. A maior parte dele fica dentro do crânio, mas não é o cérebro. do cérebro, essa parte aqui de cima, o tronco encefálico seria essa partezinha de baixo aqui. E desde o tronco encefálico, nós já temos algumas projeções que vão lá pro córtex cerebral e que estão associad esse sistema Sara. E o que que é esse sistema Sara? É um sistema muito importante para que a gente consiga dar um foco seletivo pras coisas. Ou seja, várias informações estão chegando lá do nosso corpo, né? por exemplo, acabei de tocar alguma coisa aqui. Então essa percepção sensorial, ela vai passar pelos meus nervos, chegar na minha medula espinhal e aí ela vai passar pelo tronco encefálico antes de ir pro cérebro. Então tudo que tá chegando de informação por ali, eu tenho que mais uma vez saber filtrar o que que é importante, o que que não é. E o sistema SAR, ele cria um processo de atenção seletiva, ou seja, com base no que o nosso organismo interpreta que é importante, ele vai selecionar o que que é que a gente precisa ficar mais focado, o que que a gente precisa ficar menos focado. Sabe aquela ideia que o pessoal fala, por exemplo, de lei da atração por aí? Ou seja, se você emanar as energias pro universo, aquilo te retorna. Se você repetir para si mesmo algo, você vai conseguir aquela coisa para si? Bom, é claro que você pode ter as suas crenças espirituais, religiosas, mas cientificamente falando, a gente pode explicar isso um pouco pelo sistema Sara, porque o sistema Sara ele faz com que aquilo que a gente tá muito focado, a gente enxergue mais oportunidades de

08:02 Vias dopaminérgicas, motivação e núcleo accumbens

fazer aquilo acontecer. Então, se naturalmente eu tô focado na ideia, por exemplo, de passar naquela prova e eu falo para mim mesmo todos os dias que eu tenho capacidade, que eu vou conseguir, que eu estudei, então isso vai criando um vié seletivo sobre o que que é que eu devo estar focado em contrapartida, se eu estiver repetindo para mim mesmo de que não, não vou conseguir, não estudei o suficiente, a isso também cria um viés seletivo, onde eu passo a enxergar os problemas como algo muito maior do que eles realmente são. Isso passa de alguma forma por esse sistema Sara, que vai selecionando no ambiente o que que está alinhado à aquilo que nós estamos focados naquele momento. E por fim, para terminarmos de falar sobre as estruturas associadas à atenção, é importante citarmos também as vias dopaminérgicas. As vias dopaminérgicas são aquelas que muitas vezes começam no mesenccêéfalo, que faz parte do tronco encefálico ainda também, a parte mais superior do nosso tronco encefálico, onde a gente tem produção de dopamina, que é um neurotransmissor muito importante para vários processos. Eu vou aprofundar um pouquinho mais nele daqui a pouco, mas esta dopamina é utilizada em diferentes áreas do nosso cérebro. Ela é muito importante, não só para atenção, como a gente vai falar daqui a pouco, como também a dopamina é o principal neurotransmissor associado à motivação. Então é natural que a gente preste mais atenção nas coisas das quais nós estamos motivados a prestar atenção nelas. Então, nós temos as vias mesolímbicas, por exemplo, que elas comunicam com uma estrutura chamada núcleo acumbens, que é a principal via associada ao prazer e a motivação em continuar buscando essas recompensas, esses comportamentos que são recompensatórios para nós. Então, a motivação aqui também é muito importante. Então, citei aqui para vocês algumas estruturas, vias importantes para a atenção. E quando a gente fala de TDH, todas essas vias, estruturas podem ter algum tipo de alteração. Existem vários estudos de neuroimagens sendo publicados constantemente, que vão identificando como que esses sistemas estão alterados nas pessoas que possuem o transtorno. Mas sem dúvidas a

10:02 A alteração mais estudada: pouca dopamina em certas áreas

alteração mais comum que é falada por aí, que é mais bem estudada, inclusive de onde se baseiam os psicofármacos, os remédios utilizados para TDH, é a baixa disponibilidade de dopamina em certas áreas do cérebro. Então, entre as várias coisas que eu citei aqui para vocês sobre a atenção, eu quero que a gente foque em duas delas, nas vias dopaminérgicas e no córtex pré-frontal. Por quê? Vamos falar sobre dopamina mais uma vez. A dopamina é um neurotransmissor. Neurotransmissor são as substâncias que são utilizadas pelos neurônios para poder se comunicarem entre si. Então, se eu sou um neurônio, eu quero ativar ou eu quero inibir o próximo neurônio aqui, eu vou precisar liberar um neurotransmissor para passar essa mensagem pro próximo. Então, esses neurotransmissores podem ter funções diversas. E a dopamina, mais especificamente, é um neurotransmissor que ele é muito conhecido pelo sentimento de prazer e por gerar motivação. Talvez você já tenha visto por aí o pessoal falando sobre jejum de dopamina, alguns conceitos que nem são tão científicos assim, mas aquela ideia de que a dopamina estaria associada ao prazer imediato, a busca por recompensas, a motivação. Isso é verdade. Só que aqui estamos falando sobre a via mesolímbica, em que essa dopamina que é produzida lá no mesencéfalo é utilizada no sistema límbico associado emoções e memórias. Mas nós também temos outras vias dopaminérgicas, como por exemplo, a via mesocortical. A via mesocortical vai comunicar essa dopamina produzida lá no mesencéfalo com as regiões corticais, regiões mais externas e mais especialmente com o nosso córtex pré-frontal que nós começamos introduzindo, que é uma estrutura muito importante pra atenção, porque o nosso cótex pré-frontal, ele é a principal estrutura associada a vários mecanismos de atenção importantes, como, por exemplo, a capacidade de você conseguir reter atenção determinado conceito durante um período. a capacidade de organização, de planejamento, vários processos

12:03 Dopamina como combustível do córtex pré-frontal

importantes que estão prejudicados no TDAH possuem origens lá no nosso cótex préfrontal. Então, além da dopamina ser utilizada aí para motivação, para prazer, em outras estruturas do cérebro, no córtex pré-frontal é justamente a dopamina que vai servir, vamos dizer assim, como um combustível para que o córtex préfrontal consiga desempenhar essas funções. Então, se a dopamina está em pouca disponibilidade no córtex préfrontal, naturalmente a pessoa vai tendo prejuízos nessas capacidades. E qual que é o resultado disso tudo? Os sintomas típicos de TDH. Então, os próprios psicofármacos, eles são muito formulados pensando nisso, em aumentar a disponibilidade de dopamina nessas áreas. E acontece que quando a gente tem uma redução da atividade do códice exprontal devido a este problema, isso pode acabar abrindo espaço, vamos dizer assim, para uma hiperatividade do sistema límbico, que são as estruturas mais internas associadas a emoções e memórias. Até porque o cótex pré-frontal, quando ele funciona normalmente, ele está regulando as emoções do sistema límbico. Então, se o córtex préfrontal ele está com alguma atividade inibida em defasagem, acaba que estruturas associadas a emoções e memórias podem ficar hiperativas, levando justamente a sintomas como impulsividade, hiperatividade e muito mais. E aí a gente entra nos prejuízos que pessoas que têm TDH podem ter, que vão além apenas de ter dificuldade prestar atenção, mas prejuízo nas relações sociais, prejuízo no gerenciamento das emoções, porque tudo isso acaba ficando prejudicado. E mais uma vez falando então sobre sintomas, mas agora entendendo essa neurobiologia toda, o que que essas alterações específicas podem causar numa pessoa que

13:45 Os sintomas explicados pela neurobiologia

tem TDH? Dificuldade para manter o foco em tarefas longas. Afinal, como eu falei, o cótex préfrontal é muito importante para conseguir fazer essa retenção do foco durante um período de tempo em alguma coisa. procrastinação e busca por estímulos imediatos, tanto por conta da dificuldade do foco, como também pela hiperatividade de sistemas associados a emoções, ao busca por recompensas o tempo inteiro, porque não há essa inibição de impulsos, maior dificuldade em seguir rotinas e cumprir prazos, impulsibilidade em tomadas de decisão, sensibilidade emocional aumentada, todos os sintomas associados a um mau funcionamento do córtex pré-frontal e uma hiper hiperatividade e estruturas do sistema límbico. Lucas,

14:30 Avaliação neuropsicológica antes de qualquer intervenção

mas aí, o que que eu faço para poder tratar o TDH? Como é que a gente intervém nesses casos? A primeira coisa muito importante é você saber se você realmente tem o transtorno, tá? O diagnóstico de um transtorno, ele pode ser complexo de vez em quando. Não, você não consegue apenas vendo um vídeo na internet se diagnosticar sozinho. É importante que você passe por uma avaliação neuropsicológica, onde a partir de um conjunto de critérios, testes, análise do seu contexto, vai se diagnosticar ou não para saber se você realmente está enquadrado neste transtorno para conseguir pensar num tratamento que faça sentido. Mas tendo o transtorno, normalmente o tratamento vai envolver algumas línguas, como por exemplo, a psicoterapia. Então, a psicoterapia, por exemplo, na linha da terapia cognitivo comportamental, vai te ajudar a conseguir encontrar estratégias para lidar com TDAH, porque o TDAH ele não vai embora, né? Como eu falei, ele é um transtorno do neurodesenvolvimento. Então, o cérebro funciona de uma forma diferente, mas ao conseguir estabelecer estratégias comportamentais, você consegue reduzir muito o prejuízo que esse quadro gera na sua qualidade de vida. Um segundo ponto importante é a modulação do ambiente da rotina. Por exemplo, é muito importante que você mantenha uma organização fixa de rotina, com uma higiene do sono bem feita, que você durma bem, que você pratique exercícios físicos. Então, ter uma rotina bem organizada e saudável pode ser muito útil, tanto porque isso neurobiologicamente vai estimular produção de dopamina, vai estimular neuroplasticidade, que a capacidade do seu cérebro se moldar, se alterar, como

16:04 Rotina, sono, exercício e medicação

também porque isso vai gerar um contexto mais adequado para que você não se perca nas suas dificuldades. Então, se você tem uma rotina mais fixa, bem estabelecida, é mais difícil você acabar se perdendo ali nas suas dificuldades de atenção, porque já existe uma coisa bem estruturada para você. Uma terceira linha muito importante, que em muitos casos é primordial, é a medicação, tá? Então, a gente tem que tomar cuidado com aqueles preconceitos que a gente tem com medicação muitas vezes, porque mais uma vez estamos falando sobre um transtorno do neurodesenvolvimento com alterações visíveis no cérebro. Então, muitas vezes, alguma medicação que ajude a repor essa dopamina no seu cérebro pode ser muito bem-vinda. E a gente tem aí a metilfenidato, por exemplo, que é conhecido aí como ritalina. Temos o venvvance. Claro que para isso é importante que você consulte com o médico adequado, que consiga te ajudar a escolher a melhor medicação e ajustando isso ao longo do tempo. E por fim, nós temos também algumas abordagens de neuromodulação que têm sido estudadas, embora ainda com evidências limitadas, como, por exemplo, o neurofeedback e a estimulação magnética transcraniana. Mas eu não vou aprofundar muito neles aqui agora, porque como eu falei, a gente ainda precisa de mais estudos para poder afirmar a sua eficácia e a viabilidade de utilizar essas abordagens. Em resumo, o cérebro de KT TDH apresenta diferenças notáveis, estruturais e funcionais que podem interferir consideravelmente na qualidade de vida dessa pessoa. Mas a boa notícia é que o cérebro é plástico, ele pode se alterar e ajudar você a conseguir não se livrar do TDH, mas ter uma qualidade de vida muito melhor, uma

17:40 Resumo: o cérebro é plástico

minimização considerável dos sintomas e ter um cérebro mais funcional. A psicoterapia ajuda a alterar o seu cérebro diretamente. E se você não acredita em mim, nós publicamos um vídeo recentemente aqui nesse canal falando de como que a terapia consegue transformar um cérebro ansioso em um cérebro saudável. Quer saber mais? Então vai aparecer em algum lugar aqui desse vídeo para que você possa assistir este que nós publicamos sobre como que a terapia altera o nosso cérebro. E se você gostou desse vídeo, deixe o gostei aqui embaixo, deixa o comentário falando o que que você achou. Eu te espero no próximo e tchau tchau.

Neurociências na Prática Clínica

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Lucas Kane (Lucas Xavier Mafra) é biólogo pela UFMG, com pós-graduação em Neurociências pela mesma universidade e graduando em Psicologia. Ensina neurociência aplicada à prática clínica no Instituto Lucas Kane.