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Neurociência Da Ansiedade: O Que Acontece No Cérebro Ansioso
Por Lucas Kane · publicado em 8 de setembro de 2026
A neurociência da ansiedade começa numa distinção simples: medo é a resposta a uma ameaça que está na sua frente, e ansiedade é a mesma resposta fisiológica disparada por uma ameaça que você imaginou. No cérebro ansioso essa resposta não se desliga, porque o circuito córtico-límbico está desregulado: a amígdala fica hiperativa e o córtex pré-frontal, que deveria gerenciá-la, funciona mal. É um quadro com traço físico no cérebro, e é justamente por o cérebro ser plástico que a terapia consegue mudá-lo.
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Capítulos do vídeo
- 00:00 O cérebro ansioso não funciona igual ao saudável
- 01:39 De 4 a 7% da população e os sintomas mais comuns
- 02:47 Ansiedade não é doença: é adaptação evolutiva
- 04:30 O cachorro que come o pote inteiro de bifinho
- 05:17 O efeito colateral de imaginar é sentir medo do que não existe
- 06:23 A amídala cerebral, lá no meião do cérebro
- 07:06 O hipotálamo liga o sistema nervoso ao endócrino
- 08:08 Cortisol e adrenalina: coração acelerado, pupila dilatada, suor
- 09:14 Ameaça iminente contra ameaça imaginada
- 10:06 Por que zebras não têm úlcera
- 11:10 Córtex pré-frontal e as funções executivas
- 12:59 Se você é terapeuta, leia o DSM
- 14:04 Convívio social prejudicado e sofrimento que não passa
- 15:39 Amídala hiperativa com pré-frontal falhando
- 16:54 Você não nasceu com isso e não precisa morrer com isso
- 17:57 Terapia cria via nova e enfraquece a antiga
- 19:08 Parassimpático, dessensibilização e mindfulness
Ansiedade é doença?
Não, e essa é a primeira coisa que Lucas Kane separa. Existe o transtorno de ansiedade, que é uma patologia, e existe a ansiedade, que todos precisamos sentir em algum grau. A ansiedade é uma adaptação evolutiva. Mais precisamente, é o efeito colateral de uma adaptação que nos permitiu chegar onde chegamos: a capacidade de imaginar.
É por imaginar que fazemos planejamentos complexos, avaliamos consequências de longo prazo antes de agir e postergamos recompensa, fazendo hoje algo desagradável para colher algo maior depois. O exemplo dele é o cachorro diante de um pote de bifinho: ele não pensa se vai ficar obeso ou passar mal, só na consequência direta, e come muito mais do que seria saudável. Tudo o que construímos como civilização veio dessa capacidade de projetar cenários.
O preço é que, entre as coisas que imaginamos, está o perigo. "Será que esse caminho me traz risco? Preciso me preparar para alguma ameaça?" A partir daí, sentimos medo. Sem nenhuma ansiedade, ninguém prepararia a apresentação de amanhã nem olharia para os dois lados antes de atravessar a rua.
Qual é a diferença entre medo e ansiedade?
A ameaça é real e presente, ou imaginada e futura. É a única diferença, e ela não está no corpo.
| Medo | Ansiedade | |
|---|---|---|
| Gatilho | Ameaça iminente: a cobra na sua frente no meio do mato | Antecipação de uma ameaça futura, que pode nem acontecer |
| Resposta do corpo | Luta ou fuga: coração acelerado, respiração ofegante, músculo tenso, pupila dilatada, suor | Exatamente a mesma |
| Fim | Passada a ameaça, a resposta se encerra | Não há do que fugir: você não consegue fugir da própria imaginação |
Essa simetria é o achado que organiza o resto. Os sintomas de uma crise de ansiedade são a lista dos sintomas do medo, item por item. O que muda é que, no medo, existe um predador na frente; na ansiedade, o corpo se prepara para lutar ou fugir e não há do que fugir.
Lucas Kane cita um livro cujo título resume a consequência: Por que zebras não têm úlceras. A zebra que vê o leão tem a resposta fisiológica inteira, foge, percebe que a ameaça acabou e fica tranquila. Ela não antecipa ameaças futuras, e por isso aquele medo não se instala no cotidiano dela. A pessoa ansiosa sustenta a experiência por muito mais tempo do que seria saudável.
Há uma terceira coisa que costuma se confundir com as duas. Na fobia existe um estímulo presente, e o medo dele é desproporcional ao perigo real que ele oferece. Na ansiedade, o estímulo temido não está presente e talvez nunca esteja.
Qual é o caminho da ansiedade no cérebro?
Cinco etapas, e vale conhecê-las na ordem porque é nelas que a intervenção entra.
- O estímulo chega e é redistribuído. O que você viu, ouviu ou sentiu passa pelo tálamo, que processa a entrada sensorial e a encaminha para a região adequada do cérebro.
- A amígdala interpreta ameaça. A amígdala cerebral, um núcleo pequeno no meio do cérebro, é a principal estrutura associada à resposta fisiológica de medo. Quando ela avalia que aquele estímulo pode ser uma ameaça, dispara o resto.
- O hipotálamo aciona duas vias. O hipotálamo é a ponte entre o sistema nervoso e o sistema endócrino. Enquanto o sistema nervoso gera respostas locais, neurônio por neurônio, o endócrino leva a resposta ao corpo inteiro por hormônios. Ele ativa o eixo HPA e o sistema nervoso simpático.
- Os hormônios chegam. O eixo HPA, hipotálamo, hipófise e adrenais, culmina na liberação de cortisol pelas glândulas em cima dos rins. Com adrenalina e noradrenalina, monta a resposta.
- O corpo se prepara. Respiração ofegante para mandar mais oxigênio aos músculos, músculos tensos, coração acelerado para bombear sangue, pupila dilatada para enxergar a rota de fuga, suor para liberar calor.
O cortisol, sozinho, não é o vilão. Ele é um hormônio ligado ao despertar, à atenção e à vigília. O problema é o excesso, e excesso de algo que te deixa em estado de alerta é exatamente o que caracteriza estresse e ansiedade.
Por que a crise vem sem motivo aparente?
Porque nem todo caminho passa pelo pensamento. Do tálamo, a informação normalmente segue para o córtex pré-frontal, onde é analisada e racionalizada, e é aí que a pessoa começa a pensar demais no que pode acontecer, estimulando a própria amígdala a partir do pensamento. Mas existe uma segunda rota: o tálamo pode mandar a informação direto para a amígdala, sem passar pelo córtex.
É essa ponte direta que explica a crise que parece surgir do nada. A pessoa sente a cascata inteira, coração disparado, respiração curta, a sensação de que vai morrer, sem conseguir apontar o que a causou. Existe um condicionamento por trás, mas ele não está claro para ela. É o caso típico do transtorno de ansiedade generalizada, em que os gatilhos existem, só que não são evidentes.
O condicionamento se instala pela experiência. O exemplo que ele dá é o de uma adolescente que sofre bullying na escola: com o tempo, ela fica condicionada a sentir medo só de pensar em estar lá, de se aproximar do prédio, de entrar. E continua sentindo mesmo depois que as pessoas que a agrediam já não estudam mais ali. O gatilho que dispara a reação deixou de ser o objeto original.
O que está desregulado no cérebro ansioso?
O circuito córtico-límbico. "Límbico" vem do sistema límbico, ligado a emoções e memórias, que inclui a amígdala; "córtico" vem do córtex, a parte mais externa do cérebro, que inclui o pré-frontal.
O córtex pré-frontal é a estrutura da frente do cérebro, associada às funções executivas: capacidade analítica e racional, planejamento complexo, inibição de impulsos e gerenciamento das emoções. Num indivíduo saudável, ele faz boas associações e ativa a amígdala só quando é necessário.
No transtorno de ansiedade acontece o contrário. Há hiperatividade da amígdala e mau funcionamento do pré-frontal, principalmente das subdivisões ligadas ao gerenciamento das emoções. Em vez de regular, o pré-frontal ativa a amígdala constantemente, por associações ruins. Como Lucas Kane resume no vídeo curto sobre o tema: quando o pré-frontal não funciona bem, ele não só deixa de inibir os pensamentos ruins como passa a gerar pensamentos catastróficos.
É isso que ele chama de prova de que a ansiedade é um quadro real: dá para ver o traço físico no cérebro.
Quando a ansiedade vira transtorno?
Existem critérios diagnósticos listados no DSM, e o conselho dele a terapeutas é direto: leia o DSM, entenda os critérios, trabalhe com mais assertividade. Resumindo o que separa o fisiológico do patológico, são três pontos.
| Critério | O que observar |
|---|---|
| Disfuncionalidade | A pessoa perde uma função: não consegue mais exercer a profissão, se manter nos estudos, manter um hobby, um esporte, um exercício. Ou faz, mas com capacidade reduzida |
| Dificuldade no convívio social | A ansiedade passa a impactar os relacionamentos e a forma de se relacionar |
| Sofrimento exagerado ou prolongado | O mais subjetivo e difícil de medir: o sofrimento é muito intenso, ou se mantém por muito tempo sem ceder |
Fisiológico quer dizer que aquilo faz parte do funcionamento normal da pessoa. Patológico vem de doença: é quando o quadro requer atenção maior.
Vale o pano de fundo epidemiológico que ele dá. Os transtornos de ansiedade estão entre as psicopatologias mais comuns do mundo; a estimativa que ele cita é de 4 a 7% da população mundial, número que pode ser maior dependendo do país e da população estudada. As mulheres são mais afetadas que os homens, embora haja muitos homens diagnosticados. Os sintomas costumam começar na infância ou na adolescência, ainda que muita gente só receba o diagnóstico na vida adulta. E não existe um tipo único: o DSM-5 descreve o transtorno de ansiedade generalizada, as fobias específicas, a síndrome do pânico, o transtorno de ansiedade social e o de ansiedade de separação, entre outros.
Como a terapia muda esse circuito?
Criando via nova e deixando a antiga enfraquecer. O cérebro é plástico, ou seja, se molda conforme as experiências. Quase nunca alguém nasce com a disfunção do circuito córtico-límbico: é quase sempre uma soma de fatores genéticos com fatores ambientais, traumas, estresses, o conjunto biopsicossocial. A frase de Lucas Kane sobre isso é a que mais se repete no vídeo: assim como você não nasceu com isso, você também não tem que morrer com isso.
O mecanismo é o mesmo nos dois sentidos. Vivências de valência negativa vão criando vias neurais que associam estímulos inofensivos a respostas de medo, e cada nova experiência ruim reforça essa via. A terapia cria vias novas, que fazem outras associações e vão enfraquecendo a primeira.
O que as evidências mostram, segundo ele, é que as boas técnicas atuam exatamente nesse sistema. A reestruturação cognitiva, uma das bases da terapia cognitivo-comportamental, trabalha identificando crenças e pensamentos distorcidos para ressignificá-los, e o efeito medido é duplo: melhora a atividade do córtex pré-frontal e diminui a da amígdala. À medida que o pré-frontal faz associações melhores, pensamentos mais saudáveis e projeções mais realistas, a ativação da amígdala cai.
De modo geral, dois tipos de técnica tendem a funcionar, sempre dependendo do quadro:
- As que estimulam o sistema nervoso parassimpático, que se contrapõe ao simpático responsável pelos sintomas de medo. A respiração diafragmática é o exemplo mais direto: peito imóvel, ar para o abdômen, e a contagem que lentifica a expiração, como o padrão de inspirar em quatro segundos, segurar por sete e expirar por oito. A pessoa costuma interpretar a mudança de fisiologia como um estado emocional melhor.
- As que reestruturam pensamentos, para melhorar a atividade pré-frontal. Reestruturação cognitiva, dessensibilização sistemática e práticas de mindfulness estão entre elas.
Na clínica
- Escolher entre reenquadrar e expor é uma decisão de circuito. Quando há pensamento consciente sustentando o quadro, cabe reestruturação cognitiva. Quando a via está tão reforçada que o tálamo manda direto para a amígdala, sem pensamento no meio, o caminho é exposição e mudança da fisiologia durante a crise.
- Mindfulness responde a um perfil específico. Serve à pessoa cuja mente divaga entre passado e futuro, porque reduz a divagação mental. Quando o problema é a qualidade dos pensamentos, o trabalho é de reestruturação.
- A psicoeducação muda de peso aqui. Explicar ao paciente que os sintomas dele são a resposta de luta ou fuga sem predador na frente costuma valer mais que dizer que ele precisa se acalmar.
- Não force a exposição. A melhor evidência para fobia é a dessensibilização sistemática, mas o paciente que não está pronto pode abandonar a terapia ou ser retraumatizado. Aproximá-lo aos poucos faz parte da prática baseada em evidências, porque a preferência do paciente é um dos seus pilares.
- Leia o DSM. Os três critérios acima são um resumo. O manual é a referência que separa o quadro fisiológico do patológico.
O que é a ansiedade, segundo a neurociência
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Capítulos do vídeo
- 00:00 O que é ansiedade, e o que não é
- 00:50 A diferença entre ansiedade e fobia
- 01:30 A adolescente condicionada a temer a escola
- 03:20 O tálamo redistribui o estímulo
- 04:10 A ponte direta para a amígdala e a ansiedade que vem do nada
- 04:50 O eixo HPA passo a passo: hipotálamo, hipófise, adrenais
- 05:40 Cortisol, resposta galvânica e ataque de pânico
Perguntas frequentes
Ansiedade e medo são a mesma coisa?
Não, e o que muda é o gatilho. Medo é a resposta a uma ameaça iminente, como a cobra que aparece na sua frente no meio do mato. Ansiedade é a antecipação de uma ameaça futura, que pode nem se concretizar. A definição que Lucas Kane usa é direta: ansiedade é uma resposta fisiológica de medo diante de um estímulo imaginário sobre o futuro.
Sentir ansiedade é normal?
Sim, e é necessário. A ansiedade é o efeito colateral de uma adaptação evolutiva valiosa, a capacidade de imaginar cenários futuros, e é o que faz alguém preparar a apresentação de amanhã e olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. Transtorno de ansiedade é outra coisa: é quando essa resposta passa a atrapalhar a vida, segundo critérios definidos.
Como saber se a minha ansiedade é patológica?
Por três sinais, resumindo os critérios do DSM. Disfuncionalidade: a pessoa deixa de conseguir trabalhar, estudar ou manter atividades que fazia antes. Dificuldade no convívio social: a ansiedade passa a afetar os relacionamentos. E sofrimento exagerado ou prolongado, o critério mais subjetivo. Qualquer um dos três já indica que deixou de ser fisiológica.
O que acontece no cérebro de quem tem ansiedade?
Uma disfunção do circuito córtico-límbico: a amígdala fica hiperativa e o córtex pré-frontal, principalmente as subdivisões que gerenciam emoções, funciona mal. Em vez de regular a amígdala, o pré-frontal a ativa constantemente por associações ruins. É um traço físico visível no cérebro, e não frescura ou drama.
O que causa uma crise de ansiedade do nada?
O estímulo pode ir direto do tálamo para a amígdala, sem passar pelo pensamento consciente. A pessoa sente a cascata fisiológica inteira, coração acelerado e sensação de morte iminente, sem identificar o que a disparou. Existe um condicionamento por trás, só que ele não fica claro para ela naquele momento.
A ansiedade tem cura?
O quadro pode melhorar muito, porque o cérebro é plástico. Essa é a boa notícia que Lucas Kane repete: quase ninguém nasceu com o quadro e ninguém precisa morrer com ele. A terapia cria vias neurais novas que enfraquecem as antigas. Reestruturação cognitiva, dessensibilização sistemática e práticas de mindfulness atuam nesse circuito, e cada quadro pede um tratamento diferente.
Transcrição do vídeo (3.469 palavras)
Transcrição automática do áudio da aula, sem revisão, dividida pelos capítulos do vídeo.
00:00 O cérebro ansioso não funciona igual ao saudável
o cérebro ansioso não funciona da mesma forma que um cérebro saudável embora seja um campo de estudo recente a ciência já conseguiu mapear estruturas cerebrais Claras associadas aos transtornos de ansiedade o que mostra que é um quadro real com traços físicos no cérebro e não nenhuma frescura ou drama nesse vídeo eu vou te explicar brevemente Qual é a neurociência da ansiedade e quando você entender isso você vai não só entender o que é ansiedade de fato como também ter um ponto de partida para pensar em tratamentos genuinamente eficazes se você não me conhece eu sou Lucas K eu sou biólogo neurocientista formado e pós-graduado pela UFMG acadêmico de Psicologia terapeuta e criador do maior curso de neurociências na prática Clínica do Brasil e se você tem interesse em aprender mais sobre o cérebro e o comportamento inscreva-se nesse canal porque eu estou sempre postando conteúdo sobre isso os transtornos de ansiedade são um grupo de condições psiquiátricas caracterizados por medo e preocupações excessivas a associadas ao futuro que podem interferir drasticamente na vida cotidiana no dsm5 o manual diagnóstico estatístico de transtornos mentais que é um manual utilizado pela comunidade da psicologia da psiquiatria para poder diagnosticar alguma psicopatologia os transtornos de ansiedad São caracterizados em diferentes tipos ou seja não existe um único tipo de transtorno de ansiedade entre eles a gente pode citar o transtorno de ansiedade generalizada as fobias específicas a síndrome do pânico o transtorno de ansiedade social o transtorno de ansiedade de separação entre vários outros e esses transtornos são dos mais comuns em termos de psicopatologia no mundo inteiro
01:39 De 4 a 7% da população e os sintomas mais comuns
estima-se que cerca de 4 a 7% de toda a população mundial sofra de algum tipo de transtorno de ansiedade e esse número pode ser até maior dependendo do país e da população estudada as mulheres são mais afetadas que os homens embora tenhamos muitos homens também diagnosticados com a condição e os sintomas frequentemente podem começar já na infância ou na adolescência embora algumas pessoas só sejam diagnosticadas de fato na vida adulta e só pra gente terminar de contextualizar porque isso vai ser importante pra gente explicar sobre a neurociência do quadro os sintomas Associados à ansiedade podem variar Bastante de pessoa para pessoa dependendo do tipo de transtorno também mas alguns dos mais comuns são preocupação excessiva e constante pensamentos acelerados Associados à suas preocupações medos irracionais no como no caso das fobias hipersensibilidade ao estresse sintomas físicos como palpitações suores excessivo tremores dificuldade para dormir tensão muscular e fadiga sensibilidade a situações sociais Entre várias outras manifestações agora perceba que aqui eu estou falando sobre os transtornos de ansiedade que é quando de fato isso se torna uma patologia um problema na vida
02:47 Ansiedade não é doença: é adaptação evolutiva
do paciente porém a ansiedade em si não o transtorno de ansiedade o termo ansiedade não se trata de nenhuma doença de nenhum problema na verdade Todos precisamos sentir ansiedade em algum grau dependendo do contexto porque ela se trata de uma adaptação evolutiva adaptação evolutiva Lucas tá querendo me dizer que sentir ansiedade pode ser uma coisa boa que sentir ansiedade foi importante na nossa história é difícil dizer isso quando ansiedade traz tanta angústia tanto sofrimento né mas por incrível que pareça nós só sentimos ansiedade porque temos uma adaptação evolutiva incrível que nos permitiu avançar muito enquanto civilização que é a nossa capacidade de imaginação de fazer ter projeções sobre o futuro pensar sobre o passado e criar cenários hipotéticos em nossas mentes al não entendi nada qual que é a relação disso com a ansiedade Deixa eu te explicar Pens comigo o seguinte é justamente pela nossa capacidade de imaginar que nós conseguimos por exemplo fazer planejamentos complexos pensar em hipóteses do que que pode dar certo o que que pode não dar certo avaliar as consequências de ações de longo prazo inclusive avaliar essas coisas antes de executá-las Ou seja eu projeto o que Será que determinada atitude vai me trazer será que a consequência será boa Será que a consequência será ruim e com isso tem uma tomada de decisão mais consciente é a nossa capacidade de imaginação que nos permite postergar a recompensa ou seja fazer alguma coisa um tanto desagradável agora para poder colher uma recompensa maior lá na frente que é uma das características que nos diferem de outros animais é ou não é Ou seja no mundo selvagem Geralmente os animais os seres vivos estão sempre pensando no resultado direto da da sua
04:30 O cachorro que come o pote inteiro de bifinho
ação por isso que se você pegar ali um monte de bifinho de comida e colocar pro seu cachorro comer ele não vai ficar pensando nas consequências de longo prazo dele comer tudo de uma vez muitas vezes ele vai comer comer comer muito mais do que seria saudável porque ele não tem esse pensamento de futuro ou seja o que que isso vai me causar depois Será que eu vou ficar obeso Será que isso vai me causar problema de saúde Será que eu vou passar mal ele só pensa na consequência direta que é vou me alimentar vou comer uma comida aqui que é palatável para mim e ponto final então muito do que nos difere enquanto civilização tem a ver com a nossa capacidade de imaginação o que nos permite fazer planejamento de longo prazo planejar a nossa carreira nossos estudos construir obras grandiosas tudo que nós construímos enquanto civilização veio da nossa capacidade de imaginar mas
05:17 O efeito colateral de imaginar é sentir medo do que não existe
o efeito colateral dessa capacidade de imaginação é a ansiedade porque dentre as coisas que nós precisamos imaginar é Será que essa atitude esse caminho essa realidade pode me trazer algum perigo Será que eu estarei em risco nessa situação Será que eu preciso me preparar para encarar alguma ameaça E com isso nós sentimos então medo o medo está intimamente ligado a ansiedade uma pequena diferença que eu vou explicar daqui a pouco vamos falar sobre o medo então o medo é uma resposta natural e adaptativa do ser humano frente a uma possível ameaça Vamos pensar no mundo selvagem imagina que eu sou um animal qualquer aqui na Savana Africana de repente eu vou e me deparo com um possível Predador imagina que eu sou uma zebra por exemplo e me deparei com um leão e eu sei que aquele Leão ele pode querer me predar ele demonstra querer me atacar de alguma forma naquele momento eu encaro aquilo como uma ameaça e eu preciso preparar o meu corpo o meu organismo para lutar ou fugir desse Predador como que isso acontece vamos falar sobre neurociência agora então
06:23 A amídala cerebral, lá no meião do cérebro
aqui está um modelo de um cérebro humano e bem lá no meião do nosso cérebro numa parte que a gente não consegue ver nesse modelo muito bem mas a gente vai colocar uma imagem aqui para que você possa visualizar nós temos o que chamamos de amídala cerebral amídala cerebral é a principal estrutura associada à resposta fisiológica de mido por o que que a midala faz quando ela percebe que algum estímulo que chegou através do nossos sentidos né algo que a gente viu ouviu sentiu pode vir a ser uma ameaça ela vai mandar essa informação para uma outra estrutura do nosso cérebro mais basal aqui nessa região que a gente chama de diencéfalo aqui nesse número 13 não sei se vocês conseguem ver muito bem se tá focando mas é uma estrutura chamada
07:06 O hipotálamo liga o sistema nervoso ao endócrino
hipotálamo o hipotálamo é uma importante estrutura do nosso sistema nervoso porque ele faz ligações do sistema nervoso com o sistema endócrino o sistema endócrino é aquele associado aos nossos hormônios hormônios esses que são importantes para mudar a fisiologia do nosso corpo e gerar uma resposta sistêmica então enquanto o sistema nervoso ele gera respostas locais neurônio por neurônio o sistema endócrino leva respostas do o corpo como um todo então a amídala cerebral interpretou que determinado estímulo era uma ameaça e mandou essa informação lá pro hipotálamo o hipotálamo vai atuar em duas vias preparando o nosso corpo para aquela ameaça primeiro é ativando um eixo chamado eixo hpa e segundo é ativando o nosso sistema nervoso simpático Nossa Lucas não sei que que é nada disso nunca ouvi falar nesses termos na minha vida não sei nada de neurociência Fica tranquilo o que importa no final das contas é que a essas duas ativações a do eixo hpa e do sistema nervoso simpático vai levar a liberação de vários hormônios como cortisol adrenalina noradrenalina que
08:08 Cortisol e adrenalina: coração acelerado, pupila dilatada, suor
vão gerar alguns dos sintomas típicos de uma resposta de medo como por exemplo a sua respiração vai ficar mais ofegante por quê Porque você precisa mandar mais oxigênio pros seus músculos pro seu corpo poder produzir energia para lutar ou fugir os seus músculos vão se tensionar para poder se preparar pra luta para Fuga o coração vai acelerar para poder mandar esse sangue pros seus músculos a pupila de lata para que você possa enxergar uma rota de fuga você vai liberar calor a partir do suor muitas vezes a mão sua bastante ou seja são todas respostas associadas à preparação para eu sair correndo para eu lutar para eu ter alguma forma de lidar com aquilo Agora pensa comigo o seguinte todos esses sintomas que eu falei respiração ofegante coração acelerado suor isso é bastante típico do quê são sintomas típicos de uma crise de ansiedade é ou não é Então qual é a diferença entre o medo e a ansiedade lembra que eu falei da nossa capacidade de imaginar de criar hipóteses cenários hipotéticos e assim sentir medo daquilo que nós imaginamos
09:14 Ameaça iminente contra ameaça imaginada
Então na verdade a principal diferença entre o medo e a ansiedade é que o medo é uma resposta a uma ameaça iminente ou seja imagina que você vai lá pro meio do mato tá andando de repente se deparou com uma cobra na sua frente naturalmente você tem Porque existe uma possível ameaça à sua frente agora a ansiedade não é o medo de uma ameaça iminente e sim a antecipação de uma possível ameaça futura em poucas palavras podemos dizer que neurocientificas é uma resposta fisiológica de medo devido a um estímulo Imaginário sobre o futuro ele até pode vir a se concretizar em alguns casos mas naquele momento é uma antecipação uma projeção de algo que possa vir a acontecer e Justamente por isso você ativa os seus sistemas associados ao medo só que aí nós temos um problema
10:06 Por que zebras não têm úlcera
porque o medo nos prepara para lutar ou fugir se existe uma ameaça de fato na sua frente Bom a partir do momento que você conseguiu fugir daquele Predador tudo certo existe até um livro muito legal que ele se chama porque zebras não tem úc seras ele fala justamente sobre a ideia de que a zebra Ela não fica antecipando possíveis ameaças futuras se o leão aparece na frente dela ela vai ter a resposta fisiológica de medo vai se preparar para fugir depois que ela fugiu percebeu que não existe mais ameaça acabou fica tranquilo depois e com isso aquele medo não se instaura no cotidiano dela mas a ansiedade não é bem assim a ansiedade eu tô sentindo medo de uma coisa que eu tô imaginando que possa vir a acontecer e Justamente por isso o seu corpo se prepara para lutar ou para fugir mas não tem nada para você lutar ou para fugir você vai fugir do quê da sua própria mente não tem como você não consegue fugir dos seus próprios pensamentos da sua imaginação E aí a pessoa acaba sustentando aquela experiência às vezes por um tempo maior que o saudável eu mostrei para vocês um pouco da neurociência do medo agora onde
11:10 Córtex pré-frontal e as funções executivas
que entra esse adicional da imaginação da projeção que gera ansiedade no cérebro vamos ao modelo anatômico aqui mais uma vez essa nossa capacidade de imaginar de fazer planejamentos complexos está associada principalmente a essa parte da frente aqui do nosso cérebro o que a gente chama de córtex pré-frontal o córtex préfrontal está associado ao que a gente chama de funções executivas são várias funções extremamente importantes que nos diferem enquanto seres humanos é capacidade racional do ser humano analítica matemática de planejamentos complexos de inibição dos nossos impulsos e gerenciamento das nossas emoções tanto que muitas pessoas chamam isso de neocórtex E costumo dizer que é isso aqui que nos diferencia enquanto seres humanos é claro que isso é uma simplificação exagerada mas o córtex préfrontal realmente é uma estrutura muito importante para essa nossa capacidade e embora o nosso córtex préfrontal em um indivíduo saudável vai servir para gerar diversas atividades analíticas Racionais ele pode estar com mal funcionamento e gerar quadros patológicos então nós já entendemos O que é o medo o que é ansiedade o córtex préfrontal a amídala cerebral o hipotálamo E aí lembra que eu falei para vocês que até certo ponto a ansiedade é adaptativa é normal é saudável sentirmos algum grau de ansiedade porque como eu expliquei para vocês é uma forma de nós conseguimos planejar o futuro sentir medo de algum cenário Possivelmente ameaçador E com isso traçar uma nova rota se nós não sentíssemos ansiedade de nada a gente não ia nem preparar a apresentação que tem que fazer amanhã não ia nem olhar PR os dois lados antes de atravessar a rua ou seja a ansiedade nos permite a preparação então quando que isso se torna um problema de fato
12:59 Se você é terapeuta, leia o DSM
existem diversos critérios diagnósticos para isso inclusive listados lá no dsm inclusive já fica uma dica Muito importante se você é terapeuta é muito importante que você leia o dsm Entenda os critérios diagnósticos para que possa trabalhar com mais assertividade mas se a gente tivesse que resumir aqui de alguma forma como identificar que algo deixou de ser saudável e passou a ser um problema de fato a gente pode pensar em três grandes pontos primeiro é a disfuncionalidade o que que é disfuncionalidade é quando você realmente perde uma função você não não consegue mais executar uma determinada função sua adequadamente aqui a gente vai pensar principalmente em trabalho estudos Ou seja quando Aquela ansiedade te impede de exercer a sua profissão te impede de conseguir se manter nos estudos te impede de fazer alguma atividade que normalmente você faria sem Aquela ansiedade às vezes vai te impedir de manter algum Hobby algum Esporte um exercício físico Ou seja você para de conseguir fazer as coisas que você faz fazia antes ou no mínimo tem uma redução da sua capacidade de executar aquilo
14:04 Convívio social prejudicado e sofrimento que não passa
adequadamente o segundo ponto é a dificuldade no convívio social é quando Aquela ansiedade começa a impactar os seus relacionamentos a sua forma de se relacionar com as pessoas e o terceiro que é um ponto um pouco mais subjetivo difícil de metrificar é o sofrimento exagerado ou prolongado Ou seja é quando aquele sofrimento que a ansiedade te causa é muito intenso ou ele se mantém por muito tempo incessantemente então se você tem uma disfuncionalidade uma dificuldade no convívio social ou um sofrimento já além do que seria adequado Então nesse caso podemos estar falando de um transtorno de ansiedade uma ansiedade que deixou de ser fisiológica e passou a ser patológica fisiológico quer dizer que aquilo ali faz parte de você a sua fisiologia normal Já apresentaria aquele quadro e patológico vem de doença de transtorno n quando aquilo realmente requer uma atenção maior E por que isso acontece o que leva uma ansiedade a deixar de ser fisiológica e passar a ser patológica dá pra gente ver isso acontecendo no cérebro por exemplo bom dá também nesse caso a gente tá falando sobre uma disfunção cerebral associada à ansiedade por isso que o cérebro da pessoa ansiosa não é igual da pessoa saudável porque se eu falei para vocês que a amídala cerebral leva a resposta de medo e o córtex préfrontal é a nossa parte mais racional se nós temos um corex préfrontal funcionando legal fazendo boas associações e ativando a amídala cerebral só quando necessário Então tá tudo certo mas não é isso que acontece no transtorno de ansiedade no transtorno
15:39 Amídala hiperativa com pré-frontal falhando
de ansiedade há uma hiperatividade da amídala cerebral além de um mau funcionamento do seu córtex préfrontal Principalmente as subdivisões do córtex préfrontal associado ao gerenciamento das nossas emoções é um circuito que a gente chama de circuito corticol límbico ou seja límbico vem do sistema límbico associado a emoções e memórias que vai incluir aqui a amídala cerebral entre outras estruturas e córtex vem dessa estrutura mais externa do nosso cérebro incluindo aqui o córtex préfrontal onde no indivíduo saudável esse córtex préfrontal consegue gerenciar as nossas emoções de uma forma saudável levando a uma ativação adequada e não tão intensa dess circuitos associados ao medo ao estresse ansiedade e uma boa Associação de estímulos que chegam ali mas se há uma disfunção desse circuito córtico límbico em que o córtex préfrontal não consegue gerenciar a atividade da amídala cerebral pelo contrário ativa a amídala cerebral constantemente por conta de más associações aí nós temos de fato um quadro patológico se instaurando então acaba que isso aqui é uma prova Clara que a ansiedade é um quadro real onde a gente consegue ver os seus traços físicos no cérebro agora sabe qual que é
16:54 Você não nasceu com isso e não precisa morrer com isso
a boa notícia é que o nosso cérebro é plástico Isso significa que ele tem a capacidade de se alterar de se moldar perante as nossas experiências não necessariamente você já nasceu com essa disfunção do seu sistema córtico límbico não necessariamente você já nasceu com transtorno de ansiedade quase sempre isso é uma somatória de fatores genéticos mas com fatores ambientais traumas estresses fatores biopsicossociais assim como você não nasceu com isso você também não tem que morrer com isso quando nós passamos por experiências traumáticas vivências de Valência negativa nós vamos criando vias neurais no nosso cérebro essas vias neurais vão conectando diferentes áreas do cérebro e criando as nossas associações muitas vezes nesse processo de vivências traumáticas nós começamos a criar condicionamentos negativos que fazem nós temos uma resposta de medo de ansiedade H estímulos que normalmente não deveriam levar aquelas respostas E à medida que a gente vai vivendo outras experiências ruins nós vamos intensificando e reforçando essas vias
17:57 Terapia cria via nova e enfraquece a antiga
neurais mas assim como como isso é verdade também é verdade que com a terapia por exemplo nós conseguimos criar novas vias neurais que vão começando a fazer outros tipos de associações e vão enfraquecendo aquela primeira via neural negativa criando uma outra mais saudável e o que as evidências mostram é que as boas técnicas de terapia por exemplo técnicas de terapia cognitivo comportamental de fato atuam nesse sistema córtico límbico por exemplo a técnica da reestruturação cognitiva que é uma das maiores bas bases da terapia cognitiva comportamental que se baseia em reestruturar sua forma de pensar e de acreditar nas coisas identificar crenças e pensamentos distorcidos e com isso fazer aquela famosa ressignificação O que as evidências mostram é que esse tipo de prática justamente melhor a atividade do seu córtex préfrontal e vai diminuindo a atividade da sua amídala cerebral gerando um controle maior nesse circuito córtico límbico a medida que o córtex préfrontal consegue fazer melhores associações ou seja pensamentos mais saudáveis crenças mais positivas projeções mais saudáveis pra nossa vida vai diminuindo a ativação da amídala cerebral a medida que essa área funciona
19:08 Parassimpático, dessensibilização e mindfulness
melhor é claro que diferentes quadros diferentes transtornos de ansiedade requerem tratamentos diferentes mas em geral técnicas que visem estimular o sistema nervoso parassimpático que contrapõe o sistema nervoso simpático associado à aquele sintomas de medo ou que reestruture pensamentos visando melhorar a atividade préfrontal tendem a ser ferramentas eficazes dependendo do contexto e do quadro algumas práticas que visam este processo são a reestruturação cognitiva a dessensibilização sistemática práticas de mindfulness por exemplo Entre várias outras se você quer que eu faça um vídeo aqui explicando exatamente como as melhores intervenções terapêuticas para ansiedade funcionam comenta aqui embaixo que em breve a gente pode fazer um vídeo Apenas sobre isso agora um ponto importante independente de qual seja a sua demanda existem certos hábitos globais que melhoram a nossa saúde mental a nossa capacidade mental ao otimizar o funcionamento do nosso cérebro foi justamente por isso que recentemente fizemos um vídeo aqui no nosso canal falando sobre os cinco principais hábitos que melhoram a capacidade do seu cérebro e vai aparecer aqui em algum lugar também na descrição desse vídeo o link para que você possa assistir também bom Espero que você tenha gostado desse vídeo que tenha feito sentido para você comenta aqui abaixo falando o que que você achou se ficou alguma dúvida eu te espero num próximo vídeo e tchau tchau
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Lucas Kane (Lucas Xavier Mafra) é biólogo pela UFMG, com pós-graduação em Neurociências pela mesma universidade e graduando em Psicologia. Ensina neurociência aplicada à prática clínica no Instituto Lucas Kane.